quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O ressurgir inesperado e La La Land

Após um hiato tão longo quanto o Caminho da Serpente, onde impeachment, 7 a 1, Papa portenho, Trump presidente e Eike presidiário são apenas esparsos capítulos deste período, retorno a este empoeirado café, sento-me na mesma banqueta de sempre junto ao balcão e me ponho a escrever. A mim e a quem quiser ler.

Vasculhando meus bolsos da internet nesses últimos dias, acabei por encontrar as chaves desse botequim de imaginação, e munido do login e senha que achei nunca mais me lembrar, resolvi dar um pulinho por aqui. Aliada a pequena alegria de ter “recuperado” este meu quase finado blog, nutri um sentimento de vir até aqui espiar e ver o que encontro. Sinto que apesar de todas minhas limitações e frustações, ainda posso escrever algumas bobagens. Minhas palavras podem ainda rabiscar eletronicamente este fundo branco com esboços de elucubrações íntimas. Ainda que elas não contribuam em nada para a humanidade, ajudam-me a descarregar muitas tralhas de minha cachola.

Bom, ainda não dá pra dizer que voltamos a todo vapor, e que posso, aqui assentado, pedir um café como se em funcionamento retornássemos. Todavia, ao menos, tenho aqui minha velha banqueta para me escorar e filosofar neste carcomido balcão. Então vamos lá.

 


Não poderia falar de outra coisa senão de La La Land.
Porém, antes de começar a falar sobre a mais nova coqueluche de Hollywood, indicada a 14 estatuetas douradas da Academia, tenho que deixar uma coisa bem clara. Não tenho qualquer intenção de crítico com este post, até porque não possuo capacidade técnica alguma para comentar nesse sentido. Eu sei que já ousei fazer isso outras vezes (fato que muito me envergonha), mas não tornarei a repeti-lo aqui. Trata-se de um outro tipo de análise.




Fui ao cinema não sabendo muito bem o que esperar do filme de Damien Chazelle, tendo em vista as opiniões contrárias que via pelas redes sociais, de amigos e críticos, ora em tons elogiosos, ora em tons de lamentável decepção. A única certeza que eu tinha ao entrar no cinema, sentar-me na poltrona, segurar a mão de minha namorada e esperar as imagens na tela, era que eu não gosto de musicais. Pois é, e para minha instantânea frustração, a primeira cena do longa me apresenta uns bons minutos de uma sequência de pessoas dançando aleatoriamente no engarrafamento, algo que me fez respirar fundo e imaginar umas duas horas de tortura. Felizmente, para o meu conforto, a cena inicial destoava de todo o filme e pude ter uma das melhores experiências vividas dentro de uma sala de cinema.

Em sua primeira parte, La La Land mostrou-se a mim como um filme muito bonito. Enchia-me os olhos todas aquelas cores e cortes de imagem, onde o visual encanta por sua própria aparência. Com muitas tonalidades e brilho, a aparência óptica era encantadora. Além disso, uma sequência de músicas muito bem executadas e selecionadas ajudava a criar esse primeiro deslumbramento de sentidos. Era uma atração e admiração, mas meramente visual e musical, pois a trama em si se mostrava bem simplória.

Neste instante, pensava comigo mesmo que talvez as críticas que o filme teria recebido viriam daí, do fato de ter uma estética brilhante, porém um enredo ordinário, com uma história de desfecho esperável.

Ocorre que a partir de um determinado ponto, acho que um pouco depois da metade, ou antes disso, o desenrolar dos acontecimentos assumem pequenos (bem miúdos) contornos que fazem a trama ganhar novo sentido. E aí, aliado às belas atuações do casal protagonista, me vi emocionalmente imerso naquele filme, mesmo que ainda, friamente, tudo permanecesse simples (mas menos previsível).

Só consigo concluir que no fim estava completamente encantado com a sutileza e leveza deste filme e completamente tocado por ele. Recordo que totalmente concentrado e absorto pela cena final, ouvi alguns soluços de choro me rodeando pela sala escura. Contrariando minha natureza de chorão, não verti lágrimas. Não de propósito, não consentido, mas simplesmente não chorei. Senti que minha emoção me conduzia a algo maior, algo que internamente me revirava. Saí do cinema calado, com uma paz de espírito e entusiasmo que não consigo aqui exprimir.  


Levei La La Land comigo. Na minha alma, ainda hoje, suas cenas se reprisam com destaque; e em minha cabeça ecoam todas suas canções. City of Stars? Um vício para chamar de meu e quase explodir o Spotify com tantos repeats.  

Musicalmente La La Land atingiu-me em cheio. Recheado de uma boa história sobre jazz e com tão gostosas músicas deste gênero, encontrou-me fascinado. Há uns bons meses tomei o gosto e o hábito por ouvir jazz, e tenho cada vez mais buscado novos sons para desfrutar.  O jazz tem sido meu parceiro de muitos momentos ultimamente. Apenas como nota de observação, desde que consegui reativar meu Last.fm (estou na época de ressuscitações digitais?), John Coltrane é o 5º artista mais escutado, com mais de duzentas execuções.

Inaugurando mais uma exceção às máximas de minha vida, La La Land tornou-se o primeiro querido na prateleira dos musicais. Acho que possivelmente a sutileza ao introduzir-se ao gênero e não seguir o padrão dos clássicos, o fez ser diferente, e consequentemente, caiu no meu gosto.
Bem, embora muitos tenham classificado o filme apenas como "ok" ou nem isso, eu adorei. Não está entre meus favoritos da vida, mas certamente, tal como eu aqui na minha banqueta, arrumou um cantinho aconchegante no meu coração. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Estado de Sítio, The Wall e o Efeito Hitler


"Pink isn't well, he stayed back to the hotel"


I'm back! Yeah!
Mas não comemorem, pois não é nenhuma garantia de retorno periódico. Muito pelo contrário. Apenas uma vontadezinha pilantra que me bateu de escrever mais bobagens. E lá vou eu...

Há umas semanas atrás, resolvi degustar um livrinho, pois já estava me fazendo falta, e ter só que ler livros jurídicos, e necessitava de uma boa literatura para me embriagar. Sem livros novos que me apetecessem, parti para ler o Estado de Sítio, de Albert Camus, que é parte integrante de um volume antigo que eu tinha, onde a primeira parte era esta peça de teatro e na segunda, o incrível O Estrangeiro, que eu gostaria muito de aqui comentar futuramente (sonho meu... ♪). Há três anos atrás, ou mais, quando comprei este volume, só li O Estrangeiro, e deixei aquela peça de teatro pra lá. Confesso que tinha certo receio de ler peças de teatro, com aquelas coisas de "coro", "ato 1" e sei lá mais o que. Pois bem, mas este ano eu a li, e digo que minha primeira peça teatral (sim, eu nunca li Shakespeare, me apedrejem!) me surpreendeu muito. O laureado autor angelino é de um estilo próprio que me pegou desde O Estrangeiro e que veio se confirmar com Estado de Sítio. Merece o Nobel que tem!

A trama se passa na Espanha, numa cidadezinha normal e pacata (Cadiz) que recebe uma peste. Uma terrível que ataca a cidade como um todo e aniquila muitos cidadãos. Em tom tipicamente teatral, a Peste é personificada, e se assemelha a uma figura ditatorial, tomando o controle da cidade e implantando a "ordem". No mais, a história se desenvolve e eu não contarei aqui para não estragar a possível leitura de vocês, que vale muito a pena.

O que eu vim aqui fazer, é algo que me transitou pelos miolos enquanto lia este livrinho, que foi inicialmente a semelhança de temática e de enredo com The Wall, disco e também filme, escrito pelo deus Roger Waters, líder da banda inglesa Pink Floyd. Quem acompanha o blog e/ou me conhece, sabe da minha admiração e até fanatismo por esta banda e este senhor, e portanto a comparação, ou melhor, a aproximação de ambos foi um tanto inevitável. Para os que também não sabem, The Wall, a obra conceitual do "Senhor Águas" fala metaforicamente de um muro, que seria erguido pelo personagem central, Pink, que após frustrações (que seriam os tijolos) como a perda do pai na Segunda Guerra, professores carrascos, mãe super-protetora e até uma traição conjugal, se isola atrás deste muro e acaba por enlouquecer e se transforma, dentro de sua mente doentia, num ditador fascista que comanda o exército de martelos, que caça e massacra os vermes. Bem, bem, bem... há muito mais no disco e filme do que isso, o ideal é você ir escutar e/ou ver o filme, afinal é uma obra-prima do rock!

"Ok, Nick, você associou o livro a The Wall, mas e daí?" 

E aí que me veio outra constatação interessante: o quanto Hitler aterrorizou o mundo! Tanto a Peste, como Pink (o carinha da foto acima) são figuras tipicamente baseadas no Führer e no nazi-fascismo. Há, desde o fim da segunda grande guerra, o temor, o medo. Passamos todo restante do século XX enxergando naquele senhor de cabelo lambido e bigodinho, a figura do próprio Diabo, e tudo que pudesse se assemelhar aquilo, devia ser combatido, repelido e temido. Desde então, o mundo passou a se preocupar com o interferência estatal, as garantias individuais e a tal "regra absoluta" de democracia. Muito se desvirtuou desde então, e todos nós sabemos o número de tiranias pós-45 que tivemos e ainda temos pelo mundo, sejam de direita, esquerda ou centro. E como isso se reflete nas artes é interessante. Em algumas passagens do livro, me lembrei daquele filme Brazil, onde uma sociedade futurista se afunda de tanta burocracia estatal a fim de impedir o fim do controle, e também de a Revolução dos Bichos de Orwell, também sonorizado por Waters, de Admirável Mundo Novo, de Huxler, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess e outros mais como 1984, também de George Orwell, por exemplo.
O medo de uma nova eclosão diabólica tirana mundial era constante e só foi diminuir mais recentemente, se é que esse medo realmente sumiu. Bin Laden foi uma boa invenção de novo vilão universal.

Percebo que a ideia de ter se livrado do pior não era suficiente, e que o mundo acreditava - e me parecia querer muito crer nisso - que o pior ainda estava por vir, que a verdadeira Peste se aproximava num futuro não muito distante. O pior, desses autores e artistas, não veio da forma como imaginaram, afinal, o absurdo faz parte da arte, mas, não podemos negar que nunca o Big Brother esteve tão poderoso. E com certeza ele está nos vigiando! 


Dê adeus ao céu azul!




terça-feira, 5 de junho de 2012

Combo Post: O Amante; História de Amor 90 Minutos






O Amante é uma obra premiada da escritora Marguerite Duras. Considerada seu exemplar mais autobiográfico, o livro narra a vida familiar e a precoce iniciação amorosa e sexual da personagem principal, que supomos ser a própria autora, com um milionário chinês na Indochina Francesa, atualmente Vietnã.

O romance é fraco. Uma história que devia ser de relatos emocionantes, por ser autobiográfico, beiram uma tristeza insípida que passou por mim sem nenhum efeito. Nem sei se sou insensível, mas a história da menina pobre e branca de quinze anos que se apaixona e transa com um chinês rico, e por isso fica malvista na colônia francesa da Ásia não me apeteceu nem um pouquinho. A parte da iniciação sexual até dá a entender que dali a história vai deslanchar, mas... não. Não mesmo. Pareceu-me mais um relato (a escrita é meio confusa e dá esse tom de "desabafo" ou "conversa de sessão de terapia") de alguém que sofreu durante seus primeiros anos de vida, do que algo que realmente merecesse virar livro. Talvez seja um livro que tenha mais apreciadores do sexo feminino.
Ainda bem que tem poucas páginas.

Nota: 2 grãos de café


Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. Filme de Paulo Halm, até então desconhecido por mim, passou na madrugada do último dia 28 para 29 na querida pelos insones e notívagos Sessão Brasil, da Globo. Quase nunca me prendo a filmes de madrugada, pois prefiro não correr o risco de ficar acordado até quase a hora do Telecurso 2000 e ter um dia de zumbi depois. Assim, opto por ver episódios de Simpsons e coisas que acabem em meia ou uma hora. Mas, nessa segunda estava sem sono, com ritmo de folga após a desgastante prova da OAB no dia anterior e acabei me prendendo neste filme.
Estrelado por Caio Blat, o longa conta a história de um cara (Zeca) de trinta de anos que tenta escrever um romance e não consegue passar da página 50 (acho que aí já me identifiquei de cara) e com isso vive em completa vagabundagem rodando pelo centro da cidade durante o dia e fumando. Fumando, fumando muito. Zeca é casado com Júlia, interpretada pela mulher de Blat na vida real, Maria Ribeiro, que é o oposto dele: faz mestrado (ou doutorado, não lembro), estuda bastante e tem uma vida muito atarefada. Zeca vive de mesadas que seu pai, outro escritor frustado, lhe dá periodicamente. No meio disso tudo, Zeca desconfia que sua mulher está o traindo com uma amiga, a deliciosa Carol, interpretada pela linda e sensual argentina Luz Cipriota. E nesse meio, nosso querido amigo Zeca – sim, pois aqui nós, especialmente os homens, nos tornamos seus amigos – se sente atraído pela amiga da esposa.
Narrador e desgraçado, Zeca nos conta com angústia todo o tormento de não conseguir escrever e ao mesmo tempo se ver cada vez mais consumido por Carol.
O desenrolar do filme é dramático, mas hilário. Zeca é ingênuo, é safado, é pecador e às vezes até anjo. Num clima de confusão mental e de sentimentos, acaba por se envolver com Carol e é aí que o pobre homem se tumultua ainda mais por dentro, virando dias a beber, fumar e se perder. O resto não vou contar, vocês que assistam!
O filme me cativou muito pelas atuações de Caio Blat, de Daniel Dantas que vive o pai do protagonista, da sensualidade de Cipriota, e principalmente pelo desdobramento do filme. Há na película uma inevitável, pelo menos aos homens, identificação imediata, daquilo de se imaginar na situação de Zeca (e o que fazer?!) e de torcer por ele. Confesso que às vezes senti pela dele e também quis ser ele. O clima do filme em si é cativante, meio vagabundo, com pitacos literários (com direito a ode a Rubem Fonseca e escárnio a Paulo Coelho), cigarros, embriaguez, triângulo amoroso e sensualidade.
Recomendo muito este filme, diversão e identificação garantida!
Valem muito a pena os 90 minutos.

Nota: 4 grãos de café


Dica sonora do dia: Esperanza Spalding - I Know You Know

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Criança 44


Julgo livros pela capa. Quebro a cara muitas vezes, mas continuo julgando. Sim, eu falo de livros mesmo, não de pessoas. Embora eu entenda que todo mundo faz pré-julgamento quando vê alguém (coisa, animal, lugar etc), é natural isso, não é preconceito. Preconceito é outra coisa, mas que não vem ao caso neste post.

Criança 44, livro de estreia do inglês Tom Rob Smith, foi mais um caso deste. Julguei mal pela capa, pelo fato de ser best seller — esse sim um preconceito bobo que tenho que perder — e por consequência ser popular. Tive, por isso, expectativas de um livro bobo, clichezado e previsível. Engano meu. Ponto pro livro. 1 a 0 no bobão aqui.

Olhando a sinopse, parece mais um típico livro de suspense tolo em que o protagonista quer salvar o dia e ser o fodão mesmo com tudo e todos contra ele. Vou tentar melhorar isso.
A história se passa nos primeiros anos da década de 50 na União Soviética. O governo, ou melhor, a Revolução, sendo tocada e guiada pelas famosas e pesadas mãos de Stalin em seus últimos anos de comando, usa de toda sua força para manter o ideal comunista acima de qualquer suspeita. Quando o corpo de uma criança aparece perto da linha do trem, o governo decreta que se trata de um acidente com uma locomotiva, mesmo com toda a família do menino dizendo que se tratava de um homicídio. Aí surge o encarregado do assunto junto ao governo e personagem principal Liev. Funcionário do governo e fiel defensor do sovietismo, nega e trata logo de colocar o assunto para debaixo do tapete, como manda a norma russa, já que crime é coisa do capitalismo.

Há, no decorrer da história, o que considero um dos fatores para esse best seller não cair no brejo dos clichê, muito fundo histórico e forte, que te coloca num mundo de opressão intensa que acabar por envolver o leitor e mostrá-lo o grande constaste de um Estado totalitário e a democracia (embora muito deturbada, defeituosa e falsa) em que vivemos. Evidente que não se pode confiar totalmente na realidade ali narrada, afinal é um livro de ficção escrito por um inglês, um "ocidental". Mas abstraindo essa questão realidade histórica, o cenário é muito bom. Confesso que fiquei com vontade de ler algum romance com cenário na ditadura brasileira.
Outro ponto positivo da obra de Smith são os personagens. Liev, o protagonista, e Vassíli, uma espécie de arquirrival do protagonista são excepcionais. Sério, são personagens digno de grandes clássicos. Liev não é o protagonista típico bonzão que resolve tudo de maneira inteligentíssima e defensor da justiça. Que nada! Liev é um agente da Segurança do Estado Soviético que persegue, delata, tortura e mata muita gente! Mas o que leva esse "crápula" a querer resolver a morte de crianças? Ah, isso você vai descobrir lendo.

[SPOILERS!] Aviso: aqui vou contar um pouco do livro para expor uma coisa que acho. Se você está com algum interesse no livro, melhor não ler. Não conta desfecho da história e nem o final, mas algo que acho que seria melhor você sacar sozinho quando for ler, mas se quiser, vai na fé.
O que mais me agradou neste livro é o modo como relata, de forma brilhante, sem parecer lugar comum ou papo de sociólogo barato, a transformação que o Estado exerce sobre às pessoas. O caso é colocado ao extremo, num Estado de exceção, um regime ditatorial, mas não me pareceu absurdo incluir o pensamento no Estado atual, brasileiro ou mundial. Liev no início do livro é um exemplo de funcionário e cidadão russo da época. Fiel aos ideais e as ordem da Revolução, o funcionário da MGB enxerga a vida soviética como justa e Stalin como grande líder e norte. Após o revés e Liev Demidov ser colocado como investigado em vez de investigador e sentir o peso do sistema que ele sempre defendeu, parece que enfim os olhos de Liev são abertos e ele vê o quanto fez tantos morrer por uma verdade que talvez não fosse tão verdade para ele, e antes sempre fora. O bom é que o livro "vai tirando a venda" de nosso companheiro Liev página a página, sem aquela coisa artificial que muitos livros fazem de uma linha pra outra praticamente, o já personagem se transforma totalmente sem nenhuma explicação, e o leitor que engula a seco. E dentro desse pensamento, entendo que tudo é uma questão de parâmetro. Liev achava que seu trabalho era essencial para manter o justo, a verdade. Nós, aqui no Ocidente e em pleno 2012 achamos que a democracia e a ação policial é justa e necessária, é a verdade. Será? Será que um dia não nos arrancarão a venda e veremos, assim como nosso pobre amigo Liev, o quanto o Estados nos tapou a vista? Divagações loucas, divagações... [SPOILERS!]

O livro tem seus pecados em exagerar, principalmente nas partes de ação e luta corporal. Não são muitos "erros", mas os tem, e por isso não considero um livro excelente, embora seja uma ótima dica de leitura. Ritmo acelerado, com bons personagens, boa ambientação e até com aquela coisa de descobrir o assassino típica de suspense policial — que aqui eu deixei pra segundo plano, só desfrutando a história e os personagens — ditam o o andamento desse bom livro.

Nota: 4 grãos de café.



sexta-feira, 2 de março de 2012

Combo Post: Millenium 2; Star Wars 1; Fantasia










Segundo volume da série Millenium, A Menina que Brincava com Fogo é ainda mais intenso que o primeiro. Entretanto, peca no número excessivo de páginas. Daria para enxugar bastante e torná-lo mais dinâmico. Salander é estrinchada e a cada página vai se mostrando, se revelando, mas sem contudo, se tornar algo diferente do primeiro livro. Ponto positivo da obra.
Há certos exageros que nos deixam com um gostinho amargo, todavia são leves e logo nos levam a querer saber das revelações a seguir. Foi um livro que quase desisti. Larguei ele um tempo e só depois retomei à leitura. Mas, por ter exatamente essas revelações e personagens principais (Salander e Blomkvist) tão interessantes, não me deixei ser vencido pela encheção de linguiça de Stieg Larsson. Das 600 páginas, daria muito bem para ter 350, 400 apenas. Não obstante, que venha o terceiro livro.

Nota: 3 grãos de café.



Star Wars. Talvez seja uma lenda, um vício, um clássico, um épico para você, mas nunca foi para mim. Não pense que eu desgosto da série, apenas não conhecia. Sério, até o décimo terceiro dia de fevereiro deste 2012 eu não tinha visto um filminho sequer da saga de George Lucas. É claro que sabia quem era Darth Vader, e que ele tinha uma respiração semi-asmática, do ser peludo gigante que tem uma fala engraçada e incompreensível chamado Chewbacca, dos nomes Han Solo, e que Al Pacino recusou, Anakin e Luke Skywalker, dos termos jedi, sith, lado negro da força e claro, o muito reverenciado Mestre Yoda. Apesar de tamanho sucesso e influência na cultura popular, eu nunca me interessei mesmo por Guerra nas Estrelas. Às vezes, confesso, me sentia meio excluído quando surgia uma piadinha star wars, ou coisa do tipo, e eu não entendia, ou entendia pela metade. Mas fora isso, levava bem sendo um ignorante quanto aos assuntos espaciais dos Skywalker e cia.

Pois bem, está nos cinemas Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma em 3D,e eu fui lá conferir nas telonas e relançamento da primeira parte dessa história espacial.
De início digo que o 3D é ruim. Aliás, não existe. Tirando o letreiro inicial clássico que introduz todos (acho) os Guerra nas Estrelas, as legendas e alguns bichos passando, não há 3D. Mesmo assim me diverti à pamparra, como diria Bené! Um típico filme para se deliciar. Talvez um fã da série ache algo a mais do que eu, até por ser uma espécie de "o início". Ou então o considere fraco, por já conhecer o resto. Achei um bom filme divertido para todas as idades e só.
Pretendo assistir os demais. Espero que saiam todos no cinema de novo. Porque de uma coisa eu tenho certeza: Star Wars é um filme para se ver nas telonas.

Nota: 3 grãos de café.





Vi esses dias o tão falado Fantasia, de Walt Disney. Aquele filme cult em que o grande criador de Mickey e sua turma faz o que eu sempre imaginei: dar imagem aos sons. Sim, eu tenho imagens para algumas músicas em minha cabeça, principalmente instrumentais e do Pink Floyd. Vocês não sabem a viagem que é na minha cuca quando ouço Atom Heart Mother.

A parte do Mickey feiticeiro é realmente encantadora. A vassoura que se tornam um "exército" atasanam o pequeno ratinho de um jeito cômico e adorável.

Porém, minha parte predileta foi a mitológica em Pastoral de Beethoven, onde Baco, cupidinhos, "pãzinhos" e centauros fêmeas e machos num pré-acasalamento. Aquilo é tão Alberto Caeiro!

Em música, a parte do Quebra-Nozes de Tchaikovsky é insuperável!

A parte das emas, elefantes e hipos é entediante. Achei que o filme fosse terminar mal, mas... veio a parte final para fechar com chave de ouro: a representação do diabo no fim foi avassaladora! Labaredas multicoloridas! Capetinhas! Fogo! Hell!
E de repente: sinos! Sim, sinos... malditos sinos cristãos!
A "Ave Maria" começa a dar as suas caras, com almas voando e retornando aos seus covís. A romaria se inicia, a ladainha, o coral de vozes crente e fiéis.
Até o fim de um sol raiando redentor!
Magnífico!

Nota: 5 grãos de café

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

J. Edgar


Cinema. Quanto mais vejo filmes antigos e novos, me certifico que o passado era mais agradável. Sem onda de saudosismo ou coisa assim, apenas fato. De 2000 pra cá, é difícil selecionar um top 10. Difícil mesmo, porque o número de filmes produzidos aumentou e de porcarias também, afinal a cada ano podemos dizer que tivemos 1 ou 2 filmes realmente bons, o resto (centenas e mais centenas) é lixo. E a lixeira só aumenta. Então, quando vou ao cinema e vejo um filme como 2 Coelhos, que superou todas as expectativas até entre os que não gostam de filme nacional, ou então J. Edgar, fico realmente feliz: ainda há coisa boa passando nas telonas!
Para quem não tá sabendo, J. Edgar Hoover foi o criador do Federal Bureau of Investigation, o famoso FBI. Fundador e chefe por quase 50 anos de uma das maiores organizações policiais do mundo, Mr. Hoover tem muita história vivida e que realmente valem um bom filme.
A cinebiografia de tal figura é dirigida por Clint Eastwood e tem Leonardo DiCaprio como o personagem título. Talvez o filme não tenha agradado a muitos pelo fato de Clint ter, assim como geralmente faz em seus filmes, tratado mais da pessoa de Edgar do que da própria figura pública e política. John Edgar Hoover é tratado por Eastwood como um ser humano, despido de sua couraça de homem severo – o que muitas vezes vem à tona no filme, quando necessário – para de um homem frágil, perdido e submisso à mãe.
Outro fator que gerou descontentamento foi o fato de o filme destrinchar pouco a carreira do protagonista, apenas alguns fatos mais relevantes, como que exaltando demais seu lado sensível e o deixando mais "meigo" nas telas, mais "encantador". Acontece que o filme é todo traçado na visão do próprio Hoover, – isso fica até claro – e por isso, isento de julgamento moral, o que torna o filme efetivamente bom, real do ponto de vista personal.
Quanto a passagem de Edgar pelo FBI, sua fundação, sua estruturação, a mudança de política a cada novo presidente – foram oito — e todos as frustrações profissionais, DiCaprio vai muito bem. Não chega a ser brilhante como em O Aviador ou Foi Apenas um Sonho, mas dá a sensibilidade e dramaticidade que a obra pede. J. Edgar é um filme sensível, de detalhes nas expressões e diálogos, não vá esperando um filme de ação e explosões de um violento FBI.
Como ponto negativo (e bastante negativo), temos a maquiagem. O filme opta por usar o próprio DiCaprio e Armie Hammer (que faz Clyde Tolson, assistente, braço-direito e possivelmente "amante" de Hoover) para fazê-los jovens e velhos. Nada complicado com a tecnologia que o cinema dispõe nos dias atuais. Pois é, mas a maquiagem de envelhecimento ficou péssima! A de Leonardo DiCaprio é ruim, mas nem tanto como a de Armie Hammer. O artificialismo é total. Salieri, de Amadeus, — filme que é de 1984! — tem uma maquiagem muito melhor. Ok, Murray é mais velho, mas... mesmo assim. Até a maquiagem de Cidadão Kane (década de 40!) é mais convincente.
Porém o filme vence por conseguir com um história boa, sensibilidade e um enredo corretinho, vencer todas as falhas. O conflito interno de Hoover que por vezes se externa ao lidar com a possível homossexualidade e a atração por seu secretário, e a submissão à uma mãe com notável gênio manipulador é o forte dessa obra. A forma como Edgar – tal como o The Wall de Roger Waters criticava os professores — muitas vezes desconta suas frustrações de ser dominado, - seja dentro de casa ou de si mesmo - no trabalho, é deliciosa. O autoritário homem do Estado submisso à mãe tem tanto em comum com o severo professor que apanha da mulher em casa. Eastwood e Waters, ídolos.
O filme é muito bom, peca na maquiagem e na falta de uma trilha sonora melhor. Porém, DiCaprio na atuação, Clintão na direção, Armie Hammer e Naomi Watts cumprindo seu papel, salvam o filme de maneira honrosa. 
J. Edgar claudica, mas ainda assim, é ótimo. Saí do cinema com a sensibilidade em alta.

Pra quem, assim como eu, gosta de um bom filme de personagem, de Leonardo DiCaprio e Clint Eastwood é um prato cheio!

Nota: 3 grãos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Zé Carioca



Pra quem acha que eu gosto de Zé Carioca desde minha infância, se engana. Comecei a curtir o querido papagaio tem pouco tempo, um pouco mais de dois anos, creio eu. Quando criança, não
era nada fã de histórias em quadrinhos. Nada de Batman, Superman, Garfield, Snoop, Calvin, Pato Donald, Peninha, Capitão América ou Homem-Aranha... único que eu juntava minhas míseras moedinhas de pirralho pra gastar era a Turma da Mônica. E era bastante fã, por sinal!
Mas não era muito minha praia curtir HQs, sempre preferi ver desenho, jogar video-game e ler somente Cascão, Cebolinha, Chico Bento e cia.


Recentemente (entenda-se: últimos anos), porém, conversando com meu amigo Rick, cara que curte muito quadrinhos, o assunto Zé Carioca veio à tona. Eu tava batendo papo com ele via msn e fuxicando youtube,
quando resolvi assistir um trecho do filme do Zé Carioca. Morri de rir com a ingenuidade de Pato Donald, da malandragem à lá EUA do papagaio e fascinado com a música de Ary Barroso embalando aquelas cenas. Rick achou graça também e me disse que quando menor chegou a ler umas revistinhas do Zé, e que era bem divertido. Curioso, e com um certo ufanismo estupido, não nego, fui buscar e achei revistinhas para baixar pela internet. Catapumba! Foi paixão nos primeiros balõezinhos lidos!

Diferentemente da figura caricata do filme, Zé Carioca era uma comédia pura nas tirinhas! Um típico carioca malandro dos anos 60, passando a perna nos devedores, na namorada, nos amigos, em todo mundo. Numa espécie de Seu Madruga dos puleiros, Zé Carioca me cativou para sempre. Hoje em dia, todo mês, compro minha revistinha! E digo-lhes, senhores: é ducaralho!


Não me importo que a criação do Zé Carioca seja fruto de uma questão política dos EUA com a América do Sul e que ele de início tenha sido bastante caricato. O que tem valor para mim é que Walt Disney o criou num guardanapo do restaurante do Copacabana Palace, observando as características do brasileiro comum, e que papagaio foi escolhido por Disney ter ouvido muitas piadas envolvendo o animal entre os brasileiros, e principalmente os cariocas, dos quais Walt achou muito espontâneos, engraçados e felizes. Há claramente a questão clichê do samba, futebol e praia no bichinho. Mas ora, o brasileiro (e carioca) comum não é movido exatamente por essas paixões? Então por que vir com um milhão de pedras na mão dizendo que o melhor amigo do Nestor é uma pseudoimagem do Brasil? O Brasil é sim a terra do samba, carnaval, futebol, da malandragem, do "jeitinho" e de Zé Carioca!

E não se enganem, senhores: a ararinha azul de Saldanha jamais chegará aos pés de Zé Carioca!

Se você quer saber sobre a revistinha em si, vá na wikipedia, ou se quer saber mais sobre a origem e as características do Zé e sua turma, aconselho esse fodástico trabalho monográfico, pois o post aqui é sobre a minha paixão pelo presidente da Unidos de Vila Xurupita!

Abaixo, o tal trecho onde Aquarela do Brasil embala o ciceronear de Zé Carioca a Pato Donald:








E aí Nestor, qual é a nota pro Zé Carioca?

- Uhmmm... pro Zé? 5 grãos, vai!







Ps: Dica de sites com HQs do Zé Carioca para baixar: aqui e aqui