quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O ressurgir inesperado e La La Land

Após um hiato tão longo quanto o Caminho da Serpente, onde impeachment, 7 a 1, Papa portenho, Trump presidente e Eike presidiário são apenas esparsos capítulos deste período, retorno a este empoeirado café, sento-me na mesma banqueta de sempre junto ao balcão e me ponho a escrever. A mim e a quem quiser ler.

Vasculhando meus bolsos da internet nesses últimos dias, acabei por encontrar as chaves desse botequim de imaginação, e munido do login e senha que achei nunca mais me lembrar, resolvi dar um pulinho por aqui. Aliada a pequena alegria de ter “recuperado” este meu quase finado blog, nutri um sentimento de vir até aqui espiar e ver o que encontro. Sinto que apesar de todas minhas limitações e frustações, ainda posso escrever algumas bobagens. Minhas palavras podem ainda rabiscar eletronicamente este fundo branco com esboços de elucubrações íntimas. Ainda que elas não contribuam em nada para a humanidade, ajudam-me a descarregar muitas tralhas de minha cachola.

Bom, ainda não dá pra dizer que voltamos a todo vapor, e que posso, aqui assentado, pedir um café como se em funcionamento retornássemos. Todavia, ao menos, tenho aqui minha velha banqueta para me escorar e filosofar neste carcomido balcão. Então vamos lá.

 


Não poderia falar de outra coisa senão de La La Land.
Porém, antes de começar a falar sobre a mais nova coqueluche de Hollywood, indicada a 14 estatuetas douradas da Academia, tenho que deixar uma coisa bem clara. Não tenho qualquer intenção de crítico com este post, até porque não possuo capacidade técnica alguma para comentar nesse sentido. Eu sei que já ousei fazer isso outras vezes (fato que muito me envergonha), mas não tornarei a repeti-lo aqui. Trata-se de um outro tipo de análise.




Fui ao cinema não sabendo muito bem o que esperar do filme de Damien Chazelle, tendo em vista as opiniões contrárias que via pelas redes sociais, de amigos e críticos, ora em tons elogiosos, ora em tons de lamentável decepção. A única certeza que eu tinha ao entrar no cinema, sentar-me na poltrona, segurar a mão de minha namorada e esperar as imagens na tela, era que eu não gosto de musicais. Pois é, e para minha instantânea frustração, a primeira cena do longa me apresenta uns bons minutos de uma sequência de pessoas dançando aleatoriamente no engarrafamento, algo que me fez respirar fundo e imaginar umas duas horas de tortura. Felizmente, para o meu conforto, a cena inicial destoava de todo o filme e pude ter uma das melhores experiências vividas dentro de uma sala de cinema.

Em sua primeira parte, La La Land mostrou-se a mim como um filme muito bonito. Enchia-me os olhos todas aquelas cores e cortes de imagem, onde o visual encanta por sua própria aparência. Com muitas tonalidades e brilho, a aparência óptica era encantadora. Além disso, uma sequência de músicas muito bem executadas e selecionadas ajudava a criar esse primeiro deslumbramento de sentidos. Era uma atração e admiração, mas meramente visual e musical, pois a trama em si se mostrava bem simplória.

Neste instante, pensava comigo mesmo que talvez as críticas que o filme teria recebido viriam daí, do fato de ter uma estética brilhante, porém um enredo ordinário, com uma história de desfecho esperável.

Ocorre que a partir de um determinado ponto, acho que um pouco depois da metade, ou antes disso, o desenrolar dos acontecimentos assumem pequenos (bem miúdos) contornos que fazem a trama ganhar novo sentido. E aí, aliado às belas atuações do casal protagonista, me vi emocionalmente imerso naquele filme, mesmo que ainda, friamente, tudo permanecesse simples (mas menos previsível).

Só consigo concluir que no fim estava completamente encantado com a sutileza e leveza deste filme e completamente tocado por ele. Recordo que totalmente concentrado e absorto pela cena final, ouvi alguns soluços de choro me rodeando pela sala escura. Contrariando minha natureza de chorão, não verti lágrimas. Não de propósito, não consentido, mas simplesmente não chorei. Senti que minha emoção me conduzia a algo maior, algo que internamente me revirava. Saí do cinema calado, com uma paz de espírito e entusiasmo que não consigo aqui exprimir.  


Levei La La Land comigo. Na minha alma, ainda hoje, suas cenas se reprisam com destaque; e em minha cabeça ecoam todas suas canções. City of Stars? Um vício para chamar de meu e quase explodir o Spotify com tantos repeats.  

Musicalmente La La Land atingiu-me em cheio. Recheado de uma boa história sobre jazz e com tão gostosas músicas deste gênero, encontrou-me fascinado. Há uns bons meses tomei o gosto e o hábito por ouvir jazz, e tenho cada vez mais buscado novos sons para desfrutar.  O jazz tem sido meu parceiro de muitos momentos ultimamente. Apenas como nota de observação, desde que consegui reativar meu Last.fm (estou na época de ressuscitações digitais?), John Coltrane é o 5º artista mais escutado, com mais de duzentas execuções.

Inaugurando mais uma exceção às máximas de minha vida, La La Land tornou-se o primeiro querido na prateleira dos musicais. Acho que possivelmente a sutileza ao introduzir-se ao gênero e não seguir o padrão dos clássicos, o fez ser diferente, e consequentemente, caiu no meu gosto.
Bem, embora muitos tenham classificado o filme apenas como "ok" ou nem isso, eu adorei. Não está entre meus favoritos da vida, mas certamente, tal como eu aqui na minha banqueta, arrumou um cantinho aconchegante no meu coração. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Estado de Sítio, The Wall e o Efeito Hitler


"Pink isn't well, he stayed back to the hotel"


I'm back! Yeah!
Mas não comemorem, pois não é nenhuma garantia de retorno periódico. Muito pelo contrário. Apenas uma vontadezinha pilantra que me bateu de escrever mais bobagens. E lá vou eu...

Há umas semanas atrás, resolvi degustar um livrinho, pois já estava me fazendo falta, e ter só que ler livros jurídicos, e necessitava de uma boa literatura para me embriagar. Sem livros novos que me apetecessem, parti para ler o Estado de Sítio, de Albert Camus, que é parte integrante de um volume antigo que eu tinha, onde a primeira parte era esta peça de teatro e na segunda, o incrível O Estrangeiro, que eu gostaria muito de aqui comentar futuramente (sonho meu... ♪). Há três anos atrás, ou mais, quando comprei este volume, só li O Estrangeiro, e deixei aquela peça de teatro pra lá. Confesso que tinha certo receio de ler peças de teatro, com aquelas coisas de "coro", "ato 1" e sei lá mais o que. Pois bem, mas este ano eu a li, e digo que minha primeira peça teatral (sim, eu nunca li Shakespeare, me apedrejem!) me surpreendeu muito. O laureado autor angelino é de um estilo próprio que me pegou desde O Estrangeiro e que veio se confirmar com Estado de Sítio. Merece o Nobel que tem!

A trama se passa na Espanha, numa cidadezinha normal e pacata (Cadiz) que recebe uma peste. Uma terrível que ataca a cidade como um todo e aniquila muitos cidadãos. Em tom tipicamente teatral, a Peste é personificada, e se assemelha a uma figura ditatorial, tomando o controle da cidade e implantando a "ordem". No mais, a história se desenvolve e eu não contarei aqui para não estragar a possível leitura de vocês, que vale muito a pena.

O que eu vim aqui fazer, é algo que me transitou pelos miolos enquanto lia este livrinho, que foi inicialmente a semelhança de temática e de enredo com The Wall, disco e também filme, escrito pelo deus Roger Waters, líder da banda inglesa Pink Floyd. Quem acompanha o blog e/ou me conhece, sabe da minha admiração e até fanatismo por esta banda e este senhor, e portanto a comparação, ou melhor, a aproximação de ambos foi um tanto inevitável. Para os que também não sabem, The Wall, a obra conceitual do "Senhor Águas" fala metaforicamente de um muro, que seria erguido pelo personagem central, Pink, que após frustrações (que seriam os tijolos) como a perda do pai na Segunda Guerra, professores carrascos, mãe super-protetora e até uma traição conjugal, se isola atrás deste muro e acaba por enlouquecer e se transforma, dentro de sua mente doentia, num ditador fascista que comanda o exército de martelos, que caça e massacra os vermes. Bem, bem, bem... há muito mais no disco e filme do que isso, o ideal é você ir escutar e/ou ver o filme, afinal é uma obra-prima do rock!

"Ok, Nick, você associou o livro a The Wall, mas e daí?" 

E aí que me veio outra constatação interessante: o quanto Hitler aterrorizou o mundo! Tanto a Peste, como Pink (o carinha da foto acima) são figuras tipicamente baseadas no Führer e no nazi-fascismo. Há, desde o fim da segunda grande guerra, o temor, o medo. Passamos todo restante do século XX enxergando naquele senhor de cabelo lambido e bigodinho, a figura do próprio Diabo, e tudo que pudesse se assemelhar aquilo, devia ser combatido, repelido e temido. Desde então, o mundo passou a se preocupar com o interferência estatal, as garantias individuais e a tal "regra absoluta" de democracia. Muito se desvirtuou desde então, e todos nós sabemos o número de tiranias pós-45 que tivemos e ainda temos pelo mundo, sejam de direita, esquerda ou centro. E como isso se reflete nas artes é interessante. Em algumas passagens do livro, me lembrei daquele filme Brazil, onde uma sociedade futurista se afunda de tanta burocracia estatal a fim de impedir o fim do controle, e também de a Revolução dos Bichos de Orwell, também sonorizado por Waters, de Admirável Mundo Novo, de Huxler, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess e outros mais como 1984, também de George Orwell, por exemplo.
O medo de uma nova eclosão diabólica tirana mundial era constante e só foi diminuir mais recentemente, se é que esse medo realmente sumiu. Bin Laden foi uma boa invenção de novo vilão universal.

Percebo que a ideia de ter se livrado do pior não era suficiente, e que o mundo acreditava - e me parecia querer muito crer nisso - que o pior ainda estava por vir, que a verdadeira Peste se aproximava num futuro não muito distante. O pior, desses autores e artistas, não veio da forma como imaginaram, afinal, o absurdo faz parte da arte, mas, não podemos negar que nunca o Big Brother esteve tão poderoso. E com certeza ele está nos vigiando! 


Dê adeus ao céu azul!




domingo, 24 de outubro de 2010

Café já está saindo...


O início de novo. O retorno do começo. [O bule espera, a água ferve e a xícara seca clama.]
Retomo com graus de ineditismo minhas atividades "bloguísticas". Digo isso, por esse ser meu quarto ou quinto blog. [O coador filtra; o líquido se vai, o pó fica, fica...]
E também digo isso, por neste, assumir um termo mais "sério". Ênfase pretendida à crítica de livros, textos, filmes, reportagens etc. Sem limites, é claro, até porque minha mente não resiste a eles. Crônicas do cotidiano são sempre bem vindas, e farão parte deste web-registro das minhas loucuras.
Não tenho pretensões de enormes leitores e nem de comentários mil. Se apenas um ler, está bom, se apenas eu ler, está bom. Faço mais para desafogar minha cabeça de tantos raciocínios simultâneos, do que por algum ego, que não minto, tenho um pouco. [Fumaça que sobe iá-iá, aroma que deixa iô-iô, nuvem tentadora iá-iá...]
Outro compromisso firmado, é o esforço de escrever mínimamente bem para que se tenha por aqui textos, ao menos, compreensíveis.
Ademais, espero que daqui saiam bons frutos e quem meu leitor se arriscar a ser, que saboreie com visão e paladar. [O caldo preto, o sumo forte que na porcelana acha seu berço - duas colheres, por favor - e na língua o amargo, queimando guela o caldo negro.]

Ih, o café já saiu!

Ps.: Não posso me esquecer, que graças à minha querida namorada, este blog ficou com uma estética tão bonita. Até o Brad Pitt do Bastardos Inglórios tá ali tomando uma xicrinha.