
Cinema. Quanto mais vejo filmes antigos e novos, me certifico que o passado era mais agradável. Sem onda de saudosismo ou coisa assim, apenas fato. De 2000 pra cá, é difícil selecionar um top 10. Difícil mesmo, porque o número de filmes produzidos aumentou e de porcarias também, afinal a cada ano podemos dizer que tivemos 1 ou 2 filmes realmente bons, o resto (centenas e mais centenas) é lixo. E a lixeira só aumenta. Então, quando vou ao cinema e vejo um filme como 2 Coelhos, que superou todas as expectativas até entre os que não gostam de filme nacional, ou então J. Edgar, fico realmente feliz: ainda há coisa boa passando nas telonas!
Para quem não tá sabendo, J. Edgar Hoover foi o criador do Federal Bureau of Investigation, o famoso FBI. Fundador e chefe por quase 50 anos de uma das maiores organizações policiais do mundo, Mr. Hoover tem muita história vivida e que realmente valem um bom filme.
A cinebiografia de de tal figura é dirigida por Clint Eastwood e tem Leonardo DiCaprio como o personagem título. Talvez o filme não tenha agradado a muitos pelo fato de Clint ter, assim como geralmente faz em seus filmes, tratado mais da pessoa de Edgar do que da própria figura pública e política. John Edgar Hoover é tratado por Eastwood como um ser-humano, despido de sua couraça de homem severo – o que muitas vezes vem à tona no filme, quando necessário – para de um homem frágil, perdido e submisso à mãe.
Outro fator que gerou descontentamento foi o fato de o filme destrinchar pouco a carreira do protagonista, apenas alguns fatos mais relevantes, como que exaltando demais seu lado sensível e o deixando mais "meigo" nas telas, mais "encantador". Acontece que o filme é todo traçado na visão do próprio Hoover, – isso fica até claro no filme – por isso, isento de julgamento moral, o que torna o filme efetivamente bom, real do ponto de vista personal.
Quanto a passagem de Edgar pelo FBI, sua fundação, sua estruturação, a mudança de política a cada novo presidente – foram oito — e todos as frustrações profissionais, DiCaprio vai muito bem. Não chega a ser brilhante como em O Aviador ou Foi Apenas um Sonho, mas dá a sensibilidade e dramaticidade que a obra pede. J. Edgar é um filme sensível, de detalhes nas expressões e diálogos, não vá esperando um filme de ação e explosões, de um violento FBI.
Como ponto negativo, e bastante negativo, é a maquiagem. O filme opta por usar o próprio DiCaprio e Armie Hammer (que faz Clyde Tolson, assistente, braço-direito e possivelmente "amante" de Hoover) para fazê-los jovens e velhos. Nada complicado com a tecnologia que o cinema dispõe nos dias atuais. Pois é, mas a maquiagem de envelhecimento ficou péssima! A de Leonardo DiCaprio é ruim, mas nem tanto como a de Armie Hammer. O artificialismo é total. Salieri, de Amadeus, — filme que é de 1984! — tem uma maquiagem muito melhor. Ok, Murray é mais velho, mas... mesmo assim. Até a maquiagem de Cidadão Kane (década de 40!) é mais convincente.
Porém o filme vence por conseguir, com um história boa, com sensibilidade e um enredo corretinho, vencer todas as falhas. O conflito interno, que por vezes se externa, de Hoover ao lidar com a possível homossexualidade e a atração por seu secretário, e a submissão à uma mãe com notável gênio manipulador é o forte dessa obra. A forma como Edgar – tal como o The Wall de Roger Waters criticava os professores — muitas vezes desconta sua frustrações de ser dominado, seja dentro de casa ou de si mesmo, no trabalho, é deliciosa. O autoritário homem do Estado submisso à mãe tem tanto em comum com o severo professor que apanha da mulher em casa. Eastwood e Waters, ídolos.
O filme é muito bom, peca na maquiagem e na falta de uma trilha sonora melhor, mas DiCaprio, não merecedor de indicação ao Oscar, porém muito bem na atuação, Clintão na direção, Armie Hammer muito bem também, e Naomi Watts apesar de apagada, bem e sem comprometer, superam os descuidos e percalços da película.
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